Pra não dizer que contemplava o mar em uma atitude medidativa, prefiro dizer que apreciava a formação geológica. O que fazia com que as pedras se dispusessem daquela maneira, umas em cima de outras, como se alguém propositalmente tivesse as colocado lá daquela maneira? A resposta está no tempo. E no mar. Milhares de ondas se quebrando incessantemente no decorrer de milhares de anos. E ali estão as pedras, assim como as vejo agora. Há aquelas que vivem submersas e as que a olho nu, em suas formas sumptuosas, escondem pequenos crustáceos arredios e algas traiçoeiras.
Poderia ficar ali pra sempre. Melhor ainda se estivesse só. Porque somente alguém que intenciona a reclusão poderia procurar aquele lugar sozinho, mas havia ainda as famílias. A mulher que abria os braços para a câmera e para a posteridade numa atitude de ser livre. O mar como cenário. Os braços abertos. A brisa soprando. Havia ainda a adolescente visionária, que ambicionava suas poses insinuosas em alguma comunidade virtual. Como deve ser maravilhoso ter dezesseis anos e compartilhar da própria beleza. Não poderia esquecer também da menina treinada, que se posicionava tal qual suas irmã mais velha. Crianças adultas. Infância robótica. Já o irmão do meio, aquele gordo desajeitado que não sabia se comportar diante de uma câmera, esse ficava de fora. Escalava as pedras se sentindo o próprio Indiana Jones, e queria mais. Queria que alguém olhasse para ele, talvez por isso gritasse tanto, para demonstrar divertimento. E o pai ocupado em registar a beleza das filhas, de vez em quando dava uns gritos, apenas para precaver alguma tragédia.
Estava absorto no vazio. E todo dia caminhava até as rochas, procurando por algo, como que esperando por uma epifania. Mas ainda me restava o orgulho da recusa divina, posto em dúvida diante do mar. Nada encontro. Nada encontrarei. Soluções são breves e eu mais breve ainda. Por isso tenho que retornar para o almoço. Logo vai chover.
A cabeça vazia. Os pés apressados. Subo as escadas do prédio, não tenho paciência para elevador e odeio ar condicionado, essa coisa gélida que criaram afim de propiciar o conforto, essa merda artificial que me lembra haver um mundo lá fora. Ar condicionado é o sopro da vida ausente. E já posso sentir o cheiro da comida. O bife ressoa e eu sou carnívoro, meus caninos são mais pontudos que a média e a espécie incutiu e mim um desejo animal pelo animal. Não gosto de vegetarianos. O bife. O meu suor e de repente a minha epifania. Me deparo com uma bunda grande, recoberta por uma sunga vermelha que teimava em adentrar nas intimidades daquele ser miserável que estagnou na minha frente. Nádegas é eufemismo. Havia areia naquela bunda mal amada, bunda repulsiva que ninguém quer pra si. E uma mescla de tons. A ausência dos pêlos que recobriam o corpo. As veias expostas e a pele corroída. Uma queimadura. Uma queimadura gigante que o percorria até o pé, formando um mapa. Que asco me percorreu o corpo.
" Com licença, senhor". E me desvio, num desviar esguio, os olhos voltados para o chão como quem não quer ver.
E subitamente (e paradoxalmente) a tua imagem me percorreu á cabeça. Mas você não era você. Havia uma queimadura na sua face, acompanhada de um sorriso ingênuo.
E você, tão cheia de vida, seria capaz de amar a vida sob qualquer circunstância?
O bife ainda me espera, mas já não tem o mesmo gosto de outrora. E o tempo lá fora segue. Com as ondas desgastando as rochas, fazendo delas fragmento.
Será que o tempo vai desenvolver sua ação com a mesma violência das ondas?
Em breve, eu sei, seu colo já não será mais tão tezo. Haverá um abismo entre os seus olhos e o rosto, e não será como naquele dia que você achou que seu olhar tinha caído de tanto chorar suas futilidades. Não será de tristeza. Será apenas. E as suas coxas, delineadas com perfeição, ficarão sem contornos, e ausentes de forma, já não serão mais coxas. Elas coxearão. A espécie vai se apossar do seu corpo, e ainda assim, a vida ingrata que sai das suas entranhas não te pertencerá. E o óvulo onipotente em sua inércia deixará de existir, os abortos espontâneos da vida incompleta cessarão. Seu útero apodrecerá.
Talvez, quando vier a se olhar no espelho, se depare com uma estranha que se busca. Ou Poderia analisar minuciosamente cada traço desenhado pelo tempo, cada ruga, cada história e cada feição que já vivenciou. E não saberá quem é pra si mesma, mas ainda assim haverá uma vida lá fora que vai te julgar. Mais do que uma vida, uma história, uma pesado fardo que desconsidera qualquer achismo. Mas como consolo você ainda vai se lembrar das ondas e no círculo vicioso que as acomete em algo muito maior: o mar.
12 de janeiro de 2010
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