20 de janeiro de 2010

Obviedade.

Você andava esquisito, jogando os pés pra frente. E orgulhoso foi desbravar a cidade, venceu o céu cinza e a morbidez do teu quarto. Consciente da vida, acendeu um cigarro.
Um dia comentou comigo que as vezes algo estranho te acometia: ao andar, subitamente se dava conta do que fazia, da sua imersão em sentir, em sorrir com o canto da boca um sorriso discreto. Quando se percebia, desatinava. E descompassava. O andar se perdia e os pés adquiriam vida própria. Eu te entendo. Dia desses andava por aí absorta e ao atravessar a São Francisco me avistei num espelho. Maldita consciência de ser. Só poderia me enxergar em estado de graça porque da minha desgraça eu conheço bem, amigo Gregor. Mas a minha imersão é solitária, que não me acordem por favor. Gostaria de ter a pureza de não estar conscio de coisa alguma, e como você, acender um cigarro.
Mas veja só que cena bonita, não hesite em contemplar. Um velho bêbado chingando o garçom, que dele ri, junto aos outros clientes. Ele gesticula, balbucia e o seu falar é ininteligível. Nós dois parados na rua a apreciar toda a desgraça. Não demora a passar uma moça loura de saia colorida com babados esvoaçantes, ela adentra no nosso cenário virando a esquina, e cheia de vida, toma a rua para si. A beleza contrastando com miséria, por um segundo o mundo ficou estático, mas meus olhos não fotografam Gregor, e só te resta o consolo da efemeridade mais intensa que uma vida toda.
Ontem, caminhando na feira, conheci um homem que se denominava poeta, o Batista. Achei que estivesse bêbado, mas era poeta mesmo. Mas nós bem sabemos que poesia é coisa rara e essas merdas autointituladas artistas, acho que eles deveriam beber água sanitária, se quer saber o que acho. Qualquer obra de arte transcende. Arte não é incorporação, é transcedência, e é por isso que todos eles são escravos da vida, tanto quanto um anônimo que cambaleia em alguma sarjeta e culpa á Deus por sua desgraça. Tenho um amigo que escreve como o Neruda, sensualíssimo na sua pureza de virgem. Talvez você por não conhecê-lo, aprecie seus poemas, mas eu sei que ele não dormiu com ningúém nem ontem nem nunca, Gregor. A proximidade me revela toda a pobreza daquelas mulheres enroladas em lençóis brancos.
Nos sentamos no Cavalo Babão. Você diz que eu vivo, mas que ainda assim me falta vida, aquela leveza de quem dobra a esquina absorta no nada. De consolo, que sou bonita e que não deveria me culpar tanto ao tornar tudo mais complexo. Afirmar que você é um arqui filho da puta é eufemismo, Gregor. Aforismos não apaziguam os fatos.
Se prestar atenção, verá que lá vem a nossa moça da saia de babados esvoaçantes. Ela já não nos surpreende como outrora. Sem tragédias para figurar, se torna uma anônima de vida ausente, carregando uma sacola de pão.

2 comentários:

  1. Entre e moça de vestido de babado e o poeta batista de pilar, estamos todos por ali, passando como o vento, passando como o poeta que só se dizendo poeta é notado, e como o vestido de babado, que só em um corpo de estrutura estéticamente aceitável é percebido.
    E nós o que fazemos? A vida passa como o vento; nós pasamos como o vento. O que fica, fora o vestido e o poeta que exala álcool amanhecido?
    e nós o que fazemos?
    Acender um cigarro e pensar qual o próximo belo discurso estudantil ou o grande caso revelado na manchete da tribuna.
    Efemeridades...humanidades... Pois que voem as saias e que sigam na sarjeta os poetas.

    ResponderExcluir
  2. (...) "Existe algum poeta visível, de quinta magnitude ao menos ? Não vejo nenhum. Não chamo de poeta quem apenas faz versos, com ou sem rima. Para mim, o poeta é aquele homem capaz de alterar profundamente o mundo. Se houver um poeta desses vivendo entre nós, que se proclame. Que levante a voz ! Mas terá que ser uma voz que possa abafar o estrondo da bomba. E que use uma linguagem que derreta os corações humanos, que faça borbulhar o sangue".

    Henry Miller

    ResponderExcluir