Você andava esquisito, jogando os pés pra frente. E orgulhoso foi desbravar a cidade, venceu o céu cinza e a morbidez do teu quarto. Consciente da vida, acendeu um cigarro.
Um dia comentou comigo que as vezes algo estranho te acometia: ao andar, subitamente se dava conta do que fazia, da sua imersão em sentir, em sorrir com o canto da boca um sorriso discreto. Quando se percebia, desatinava. E descompassava. O andar se perdia e os pés adquiriam vida própria. Eu te entendo. Dia desses andava por aí absorta e ao atravessar a São Francisco me avistei num espelho. Maldita consciência de ser. Só poderia me enxergar em estado de graça porque da minha desgraça eu conheço bem, amigo Gregor. Mas a minha imersão é solitária, que não me acordem por favor. Gostaria de ter a pureza de não estar conscio de coisa alguma, e como você, acender um cigarro.
Mas veja só que cena bonita, não hesite em contemplar. Um velho bêbado chingando o garçom, que dele ri, junto aos outros clientes. Ele gesticula, balbucia e o seu falar é ininteligível. Nós dois parados na rua a apreciar toda a desgraça. Não demora a passar uma moça loura de saia colorida com babados esvoaçantes, ela adentra no nosso cenário virando a esquina, e cheia de vida, toma a rua para si. A beleza contrastando com miséria, por um segundo o mundo ficou estático, mas meus olhos não fotografam Gregor, e só te resta o consolo da efemeridade mais intensa que uma vida toda.
Ontem, caminhando na feira, conheci um homem que se denominava poeta, o Batista. Achei que estivesse bêbado, mas era poeta mesmo. Mas nós bem sabemos que poesia é coisa rara e essas merdas autointituladas artistas, acho que eles deveriam beber água sanitária, se quer saber o que acho. Qualquer obra de arte transcende. Arte não é incorporação, é transcedência, e é por isso que todos eles são escravos da vida, tanto quanto um anônimo que cambaleia em alguma sarjeta e culpa á Deus por sua desgraça. Tenho um amigo que escreve como o Neruda, sensualíssimo na sua pureza de virgem. Talvez você por não conhecê-lo, aprecie seus poemas, mas eu sei que ele não dormiu com ningúém nem ontem nem nunca, Gregor. A proximidade me revela toda a pobreza daquelas mulheres enroladas em lençóis brancos.
Nos sentamos no Cavalo Babão. Você diz que eu vivo, mas que ainda assim me falta vida, aquela leveza de quem dobra a esquina absorta no nada. De consolo, que sou bonita e que não deveria me culpar tanto ao tornar tudo mais complexo. Afirmar que você é um arqui filho da puta é eufemismo, Gregor. Aforismos não apaziguam os fatos.
Se prestar atenção, verá que lá vem a nossa moça da saia de babados esvoaçantes. Ela já não nos surpreende como outrora. Sem tragédias para figurar, se torna uma anônima de vida ausente, carregando uma sacola de pão.
20 de janeiro de 2010
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Entre e moça de vestido de babado e o poeta batista de pilar, estamos todos por ali, passando como o vento, passando como o poeta que só se dizendo poeta é notado, e como o vestido de babado, que só em um corpo de estrutura estéticamente aceitável é percebido.
ResponderExcluirE nós o que fazemos? A vida passa como o vento; nós pasamos como o vento. O que fica, fora o vestido e o poeta que exala álcool amanhecido?
e nós o que fazemos?
Acender um cigarro e pensar qual o próximo belo discurso estudantil ou o grande caso revelado na manchete da tribuna.
Efemeridades...humanidades... Pois que voem as saias e que sigam na sarjeta os poetas.
(...) "Existe algum poeta visível, de quinta magnitude ao menos ? Não vejo nenhum. Não chamo de poeta quem apenas faz versos, com ou sem rima. Para mim, o poeta é aquele homem capaz de alterar profundamente o mundo. Se houver um poeta desses vivendo entre nós, que se proclame. Que levante a voz ! Mas terá que ser uma voz que possa abafar o estrondo da bomba. E que use uma linguagem que derreta os corações humanos, que faça borbulhar o sangue".
ResponderExcluirHenry Miller