5 de agosto de 2010

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Aspirava seu cigarro até a última tragada ao olhar para o horizonte de um grande nada, com tamanha sutileza, que parecia impossível. Não há nada de imaterial, não há possibilidades para além da carne intrépida imóvel na minha grande janela. É isso que me dói, é a imperfeição mundana que por um minuto transcende e vai para muito longe da pureza de algum paraíso celestial. Da minha janela grande, que não merece o azul do céu em Curitiba, há um ser que não está, se confundindo no cinza que nos encobre, pano de fundo das nossas vidas. Esse cinza que me faz olhar em desespero pra cima e me esconde tudo o que há por trás. Talvez eu não precise de tanto, porque a verdade concreta das crinças brincando as seis da tarde me contenta e me basta. Mas é na falta dela que eu me perco. É na impossibilidade que as minhas mãos buscam palpar as nuvens. Não tenho estômago para abismos incertos.
Colocava as roupas que a impediam de gozar da própria natureza, que de tão crua não se ocultava sobre disfarces, vinha a tona quando acendia o seu cigarro. Quando a encontrei assim, desprotegida de si mesma, recuou feito fêmea abatida repleta de todo o pudor. Fêmea essa que sabia chorar de prazer e silenciar de angústia. Sua solidão não seria compartilhada, e é na falta que me detém a posse.

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