A sua figura de andarilho errante buscando sentido na vida é estapafúrdia. Poesia só existe no teu quarto e não há nada mais real que o Lexotan em cápsulas que ela toma que forma maços de cabelo ao redor do ralo. Não use os teus sentimentos como subterfúgio para a poesia-lixo, que o adorno não os torna mais elevados, seu bicha.
Você coloca uma questão concreta á ela. Ir ou permanecer. Ela jamais entenderia a causa do teu tormento, vai rir dos teus pesares, afinal, a vida é assim mesmo, uma série de escolhas pelas quais você, homem maduro, deve responder.
Eu entendo que você não queira deixar a mostra a fragilidade da tua macheza, mas é que em partir(e isso você não confessa) há um desejo implícito, não por alguma coisa que te atraia ou de fuga, mas de busca, pura e simplesmente. A busca, porque pautar a vida em objetivos concretos e materializaveis não faz o menos sentido, o qual você quer dar pra vida, na ânsia de um propósito qualquer que não te faça viver de um dia para o outro.
O materialismo histórico pelo qual você daria seu sangue no dia da revolução de um futuro por nunca a vir não te faria acordar todos os dias de manhã e dar bom dia ao sol. Mas o sonho não apodreceria com o teu cadáver, ainda haveria a crença inabalável do comunismo como solução para as mazelas da humanidade. Nos momentos finais que precederiam teu fim, morreria em paz, como um crente que sofre mas tem o consolo do retorno ao paraíso. Já era tempo de descobrir que todo operário está sujeito a sentimentos pequeno-burgueses e que as camisetas do Che, bem, você sabe...
Partir seria uma escolha pautada em propósito nenhum, mas a distância é colírio pros olhos, os quais quando você voltar estarão sedentos de vida, porque a vida não pode e nem deve ser a continuidade do dia anterior e a ânsia do por vir, o que me faz lembrar as putas do Passeio Público, que são espectros do passado, cujos olhares tristes revelam a ausência do desejo. Elas esperam apenas, uma espera tão digna quanto a que pertence as donas de casa que bordam panos de prato na sala, resignadas em aguardar o retorno do marido, o que faz com que todas as mulheres sejam honradas, portanto. E todas elas esperam porque sabe que algo as espera, ademais só lhes resta a certeza da vida que ressoa tão distante. Mas se as putas e as donas de casa esperam a contemplar a passagem do tempo elas ao menos estão situadas em suas ilusões realistas, há aqueles que esperam pelo amor como epifania chave para a revelação da vida. São esses que me inspiram asco. Eles sentem a ausência e aguardam em sonho a felicidade. Se as putas seduzem cenicamente e as donas de casa bordam como forma de ocupação, quem espera pelo amor nada pode fazer por si mesmo. Não há bordados e artimanhas que consolidem o ideal da plenitude eterna.
Ela esperava pelo amor que nunca veio e agora toma Lexotan. Há tantos cabelos no ralo que temo que em breve lhe caiam os pentelhos também. Nós a olhamos pelo viés da distância, respirando sua angústia. Dela caem os cabelos, aqui há tempos que vem caindo chuva, mas quando se tem uma razão ela deixa de existir. Você não tem motivo algum, não tem um amor que lhe faça enfrentar a morbidez da cidade e ir visitar de ônibus seu amor no domingo e eu também não. Mas quando criança costumava correr atrás do caminhão de porcos que passava ao anoitecer e deixava consigo um cheiro que impregnava a rua e adentrava na morada dos crentes, que reclamavam da coisa mais pura já concebida: os porcos. Na falta de amor ou de suínos para seguir, deveria me despedir, mas fins não são absolutos e sempre há um retorno prévio.
(espero dar continuidade)
5 de fevereiro de 2010
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