Donos de brechó são a escória da humanidade. Cornos, todos eles, cornos. Mal amadados, a deriva do tempo. Um palito crivado nos dentes, as palavras cerradas e a boca semi aberta com o remorso de quem não pode desejar um bom dia, não por hipocrisia, mas por culpa, o pesar de quem vê as traças e respira o mofo, diariamente. Quando vão efetuar as compras, te olham de cima a baixo, como se você fosse algum viciado que precisa de continuidade. Examinam suas roupas e se dão ao luxo de dizer que nada presta, que nada interessa, que não precisam de nada daquilo. E de fato, não precisam. Não sei nem se precisam de dinheiro, não vejo a avidez do lucro em seus olhares de gente morimbunda. São cadáveres procrastinados, lhe garanto. Se eles não buscam, estão a meio caminho de morte, morte impregnada nos velhos ultrajes que já foram novidade. Convivem com a ânsia desses ratos do 'underground', estudantes de humanas, calhordas que buscam no velho, o novo. Nada mais sustentável do que roupa de defunto.
Nos meus caminhos a toa na metrópole província as vezes me deparo com o Fred Roberty Roberty, assim mesmo, que é pra ser mais psicodélico. Gosto de imaginar que o nome dele seja José Pacheco da Silva, o Zé, travestido de poeta, representação arquetípica que habita no meu inconsciente coletivo(conheço o Fred de outras páginas) que insinua: não o leve a sério, você tem horário pra chegar, tem mais o que fazer, não se esqueça de amanhã. Ou que dita: vagabundo! Exclamação válida para os artistas circences que se apropriaram das esquinas centrais e agora transbordam alegria com seus malabaris. Não tenho compaixão atrás de um vidro fumê.
Preciso te confessar que se bebo, preciso beber sem sentir que o faço, assim mesmo, sem gosto e indolor, tudo de uma vez. É que se eu me prolongo, me sinto triste de uma tristeza crua. E desatino a falar. Se no teu aniversário te parabenizei por você ter saído do útero da sua mãe não foi por mal, só queria tornar explícito que você não é nada. E por trás de uma fato tão real e límpido há tudo aquilo que se consome implicitamente. Você é tudo que eu não confesso. Ficou confuso, eu sei. Mas gosto de pensar que somos tão pouco. Sou movido pelo desejo de matar egos, á machadadas. Há tanta grandeza em ser, e como as coisas bonitas e terrivelmente assustadoras, tanta grandeza vista de perto só pode conter toda a miséria de ser alguém, que possui um par de olhos na frente, e não nas laterais.
[sem continuidade, pra variar]
3 de abril de 2010
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