Hoje o dia está pra morte, Gregor. Céu acinzentado de nuvens prateadas, o silêncio úmido que procede as chuvas torrenciais. Essa mesma morte não consumada que tira a altivez dos olhares. Pela manhã fazia um frio de rachar os lábios, as janelas do Santa todas fechadas, os vidros embaçados. Pra onde os colonos olhavam, pra onde os colonos pensavam, não sei Gregor, lamento não saber. Não é difícil sentir que tudo ali pesa, até mesmo o ar partilhado. É que ultrapassar as muralhas da colônia requer frieza, a mesma frieza calcada no coração dessa gente que não olha nos olhos, que não encara, encarando. Assim são os colonos de Santa Felicidade, gente do nariz avantajado e vermelho, dos olhares esguios e que aos domingos degusta frango e polenta, tudo em família.
A metrópole província me ultrapassa e me engole. Todo dia a praça do homem nu está ali, o Japonês do brechó tosse feito tuberculoso, o hippie maldito da Carlos Cavalcanti, bem, ele ainda está lá. Curitiba é óbvia e talvez por isso mesmo esteja além da minha compreensão. Porque o inatingível reside no mistério e a realidade aqui é tão mais crua que me escapa aos sentidos.
Você diz que eu sou previsível na minha inconstância, as crises que me acometem você aponta a dedo Gregor, atesta a minha pobreza com prepotência. Mas saiba que ainda tenho a sutileza de ser fugaz, porque não consigo pertencer a ninguém, minha miséria é preciosa, a fonte dos meus deletérios. Eu, que mendigando pela poesia escassa em vida(afinal, poesia também não é uma busca?) mudei o percurso rotineiro e caminhava pela São Francisco nessa ânsia nojenta de abstrair para tornar belo, em passos insossos a pensar na morte, quando fui assaltada. Não tinha nada de valioso, entreguei meus pertences com tamanha naturalidade que mais um pouco e me entregava junto. Impassível, mal reagi, que eu também tenho estado meio morta, racionalizando até a morte, queria temê-la, mas sinto que ela é banalidade qualquer no meu caminho, como um bandido bem vestido que me acometeu outrora.
Meu avô está internado, Gregor. Receio por ele, mas sei(ou finjo saber) que de duas, uma. Enquanto isso eu posso ouvir o ressoar de Ave Maria, as mulheres rezam o terço e nada, mas nada no mundo pode ser mais triste que isso. Se livrar da morte é milagre divino, talvez viver também o seja, mas não com o mesmo esplendor, não com a mesma tragédia concedida ao fim. Maria Rosa, minha tia da voz entonada por anos de missa, guia a reza com sua voz altiva. Ela já se lembra das palavras sábias do meu avô, sente saudade antecipada daquele que numa UTI padece. As mulheres grávidas sofrem por dois enquanto colocam a mão fruto bendito do ventre, as veias lhe rompem nas testas e seus olhares são acometidos para o chão. Olhar nos olhos é uma afronta. Todos sofremos, enquanto isso as crianças se entretem entre gritos espaçados. A morte ainda não veio, mas habita em cada esquina, impregnada em mim, que ao atravessar a São Francisco, buscava no fim qualquer pretexto banal para sustentar o presente. A efemeridade do agora não é clamada entre pai nosso e ave Maria, entre olhares que não se cruzam e gemidos que ultrapassam. Existe, apenas. Não é poesia que se busca, tampouco adorno para a miséria que me acomete ao dobrar a esquina. É essa realidade crua cujos ventos gélidos de Curitiba me assopram por toda parte.
Though I know that evenin's empire has returned into sand,
Vanished from my hand,
Left me blindly here to stand but still not sleeping. My weariness amazes me, I'm branded on my feet,
I have no one to meet
And the ancient empty street's too dead for dreaming.